Educando para a resiliência

Se fosse possível entrevistar os pais dos mais de dois bilhões de crianças e adolescentes que vivem no mundo, certamente constataríamos uma grande diversidade no olhar desses pais em relação aos seus filhos. Por outro lado, não ficaríamos surpresos em constatar a uniformidade das expectativas desses mesmos pais para a vida dos seus filhos: serem felizes, terem sucesso e saúde.

Para conquistar esses desfechos na vida, a criança precisa desenvolver um conjunto de competências que a torne resiliente. A criança e o adolescente resiliente: 1) lida melhor com o estresse, a pressão e os desafios da vida diária; 2) tolera melhor suas frustrações; 3) consegue superar as adversidades e traumas; 4) estabelecer objetivos claros e reais; 5) resolve bem seus problemas; 6) se relaciona bem com os outros; 7) sabe respeitar os outros e a si próprio.

As evidências científicas atuais comprovam que o sucesso que uma criança pode alcançar na vida adulta depende muito mais de suas habilidades (muitas delas incluídas na definição de resiliência) e pontos fortes do que de suas fraquezas e dificuldades.

O modelo que deriva desse conceito de resiliência nos explica melhor por que algumas crianças superam com absoluta facilidade numerosos obstáculos, modelando e lapidando continuamente o seu modo de ser até alcançar sucesso na vida adulta, enquanto outras se tornam presas fáceis de um ambiente inadequado ou de experiências de vida negativas.

Independente do credo religioso e de aspectos éticos, culturais ou científicos, todos concordam com a importância de educar as crianças para a resiliência.

Para essa tarefa, ao invés de concentrarmos nossos esforços na mudança do mundo que nos cerca, deveríamos canalizar nossa energia e atenção para as crianças que temos bem perto de nós, em nossas casas e salas de aula.

Alguns ingredientes são fundamentais na educação de uma criança para a resiliência: amor, disponibilidade dos pais, consistência e disciplina; outros atributos educacionais são mais específicos e precisam ser mais bem elaborados e desenvolvidos junto à criança ou adolescente.

Para Brooks e Goldstein as estratégias educacionais abaixo relacionadas são os pilares da educação para a resiliência:

1. Empatia
Empatia é uma habilidade vital para todos os relacionamentos humanos. Ser empático com filhos (ou alunos) é conseguir se colocar no lugar deles, ver o mundo através dos olhos deles. Não significa concordar com tudo o que eles dizem ou fazem, mas, sobretudo, tentar avaliar e validar os seus pontos de vista, ainda que discordem deles. Pais e professores empáticos conseguem avaliar como suas palavras e ações chegam até seus filhos e alunos, como são vistas e sentidas por eles. Ser empático é agir com os outros da forma com que gostaríamos que os outros agissem conosco. Algumas questões nos ajudam a desenvolver empatia: “Como eu gostaria que meus filhos (alunos) me descrevessem?”; “Como eles me descreveriam nesse momento?”; “Quão distante está a descrição deles sobre mim, da que eu desejaria que fosse?”; “A minha forma de comunicação com meus filhos (alunos) é eficaz, ou seja, consigo a sua atenção e participação no processo?”; “Eu gostaria que alguém falasse e agisse comigo da forma com que eu falo e ajo com meus filhos (alunos)?”. Pais e professores capazes de superar suas frustrações e ir à busca dessas respostas já estão praticando empatia, componente chave para educar uma criança para a resiliência. Outra consequência importante desse processo é que sendo empático com nossos filhos ou alunos estaremos dando um grande estímulo para que eles desenvolvam empatia conosco e com os outros.

2. Comunicação eficiente
Comunicar-se não é apenas falar, comunicar-se de forma eficiente é um processo ativo e muito mais amplo que inclui vários outros atributos. Alguns dos seguintes podem nos ajudar bastante na comunicação com nossos filhos ou alunos: a) ouvir com atenção o que eles têm a dizer; b) tentar compreender e validar o que eles tentam explicar; c) não interromper enquanto falam; d) não dizer a eles como deveriam estar se sentindo ou o que deveriam estar pensando (isso virá como consequência do diálogo); e) jamais ofender ou diminuir nosso interlocutor; f) evitar o uso de palavras de sentido absoluto como “sempre” e “nunca” (“você sempre erra”, “nunca me entende”, etc.). A arte da comunicação terá implicações importantes para as demais habilidades de resiliência como relacionamento interpessoal, empatia, resolução de problemas e tomada de decisões. As crianças e adolescentes resilientes desenvolvem uma capacidade de comunicação eficiente através dos seus pais e professores, modelos fundamentais nesse processo.

3. Mudar roteiros negativos
É comum vermos pais que por anos a fio insistem com seus filhos para que cumpram determinadas obrigações, mesmo que por anos a fio seus filhos os desobedeçam. Como numa peça ou filme, cada um cumpre “religiosamente” o seu papel em um roteiro em que os pais ralham com os filhos e eles desobedecem aos pais. Uma das principais razões para esses pais persistirem no erro é a crença de que só os filhos devem mudar. Pais resilientes sabem que devem mudar o roteiro quando os filhos não mudam o seu. Nessa mudança de roteiro, coragem e criatividade são atributos fundamentais. Muitas dessas crenças tiveram origem na nossa infância e foram transmitidas a nós por meio da educação, é preciso coragem para mudar um roteiro que já decoramos há tempo. Criar rotas alternativas para um final comum pode não ser tarefa fácil, mas certamente aparece quando um desafio maior se impõe.
Mudar roteiros não significa ceder, mas, sobretudo resolver problemas com inteligência e sabedoria.

4. Amar de forma com que eles se sintam especiais e admirados
Amor de pai e mãe é diferente de outros amores, ele é incondicional. É importante que isso fique claro para os nossos filhos sempre, a despeito de tudo que possam fazer, sempre iremos amá-los. O que não significa, no entanto, que os amando consentimos com suas transgressões, isso também precisa ficar bem claro na relação. E se sentindo amados, certamente se sentirão especiais e admirados. Como pais, precisamos encontrar outras formas de fazer nossos filhos se sentirem especiais e admirados, seja expressando nossa confiança e admiração, reconhecendo nossos erros, pedindo desculpas ou uma opinião. Outra estratégia eficaz é reservar um tempo especial para estarmos juntos com cada um deles. Um momento em que não haverá intromissão de telefone, trabalho, TV ou o que quer que seja. Esse “momento blindado de dedicação” denota nossa admiração por eles e fará se sentirem especiais.

5. Aceitá-los como eles são
Toda criança é única desde o momento do seu nascimento. Algumas vêm ao mundo com um temperamento fácil, outras são difíceis, outras são tímidas, outras desconfiadas, numa diversidade infinita e admirável. Um dos maiores desafios a serem vencidos pelos pais é aceitar seus filhos dentro dessa perspectiva diversa e não a partir de suas próprias expectativas. Havendo aceitação, aí sim os pais podem estabelecer suas expectativas e objetivos a serem alcançados, consistentes com o temperamento e desenvolvimento dos seus filhos. Aceitar, obviamente, não significa tolerar comportamentos inapropriados e inaceitáveis, mas acima de tudo ajudar a criança a mudar sem que haja prejuízo de sua autoestima e senso de dignidade.

6. Ajudá-los a identificar suas habilidades e com elas experimentar sucesso
Ao contrário do que se pensava no passado, a literatura atual comprova que a determinante mais importante no sucesso futuro de crianças e adolescentes, nos vários contextos de suas vidas, são suas habilidades e não as dificuldades. Identificar e investir nessas habilidades é uma maneira eficaz de promover a autoconfiança e autoestima, esperança e otimismo. Crianças e adolescentes resilientes não desistem diante dos problemas, eles reconhecem suas habilidades e nelas concentram seus esforços. Infelizmente, muitos jovens com baixa autoestima e autoconfiança têm dificuldades em identificar suas habilidades, o que lhes rouba a esperança de transpor os obstáculos que se apresentam. É muito difícil para um jovem nessa condição, ser convencido pelos elogios ou palavras de estímulo dirigidas pelos seus pais. Para eles realmente acreditarem em suas habilidades, e assim restaurar sua autoconfiança e autoestima, precisam experimentar o sucesso em áreas de habilidades que sejam importantes para eles e seus pares. Ao identificar suas habilidades o jovem finalmente é capaz de enfrentar os problemas em áreas que apresenta dificuldades ou limitações.

7. Ajudá-los a aprender que erros são oportunidades para aprender
Em geral, temos a tendência de imprimir em nossos filhos, desde bem cedo, a crença de que erros são tão somente comportamentos a serem punidos. Essa postura pessimista e de punição, ao provocar o medo de errar pode, com o tempo, retrair a criança ou o adolescente no enfrentamento dos desafios que se apresentam. Nesse sentido, seja o modelo para seus filhos, sempre que possível exemplifique, por que não discutir com eles erros que você mesmo cometeu e o que aprendeu em cada uma dessas situações? É importante que se convençam de que errar não é apenas aceitável, mas algo inevitável ao longo da vida. Quando erros se repetem, certamente não houve aprendizagem adequada e todo o processo deve ser revisto. Estabeleça expectativas realistas para seus filhos e ensine-os a fazer o mesmo para si, muitas vezes os erros decorrem de expectativas irreais dos pais para os filhos e deles para eles próprios.

8. Ajudá-los a desenvolver responsabilidade, compaixão e consciência social
Crianças e adolescentes resilientes têm um forte senso de responsabilidade, compaixão e consciência social, por serem ferramentas poderosas para ajudar o próximo. Estudos acerca do desenvolvimento infantil comprovam que uma das mais fortes pulsões da criança é a de ajudar. Quando solicitados a recordar as situações mais prazerosas de sua infância, a maioria dos adultos lembra-se de momentos em que estavam ajudando alguém a realizar algo, faça o teste e verá! Essa pulsão de ajudar pode ser observada bem cedo, mesmo em crianças de 1-2 anos de idade, e deve ser estimulada de forma a persistir ao longo do seu desenvolvimento. Ofereça oportunidades para que seus filhos e alunos se sintam ajudando os outros. Programe ações de caridade em sua casa ou sala de aula com participação ativa e voluntária dos seus filhos e alunos. Estimule-os a perceber desigualdades e injustiças, isso lhes ajudará a desenvolver compaixão, consciência social e cidadania. Seja um modelo de responsabilidade para seus filhos e alunos e dê oportunidades para eles desenvolverem responsabilidade. Desenvolvendo essas capacidades estaremos solidificando neles os pilares da vida em sociedade, os direitos e deveres de todos nós.

9. Ensiná-los a resolver problemas e tomar decisões
A criança e o adolescente resiliente demonstram segurança e controle sobre suas vidas, não lhes agrada a ideia do “deixa a vida me levar”! Ter controle sobre a sua vida é algo crítico para todos nós. Quando os pais ensinam seus filhos a tomar decisões e resolver problemas de forma autônoma estão habilitando-os em autocontrole e autocondução. Crianças e adolescentes resilientes são capazes de: 1) definir um problema; 2) considerar diferentes soluções e suas possíveis consequências; 3) decidir sobre a solução mais apropriada para aquela situação; 4) executá-la; 5) avaliar seus resultados; e 6) aprender com as consequências. Para o sucesso da aprendizagem, os pais devem progressivamente deixar que os filhos desenvolvam autonomamente cada etapa do processo. Programe encontros familiares para a articulação/discussão dessas várias etapas a partir de problemas que se apresentem para o grupo ou para cada um, serão momentos de crescimento para todos.

10. Disciplinar promovendo a autodisciplina e autoconfiança
A palavra disciplina tem a mesma raiz que a palavra discípulo, “aquele que segue”, “aquele que aprende”. Disciplinar, portanto, é um processo de aprendizagem, não de punição. Esse é o verdadeiro sentido do ato de disciplinar, ensinar, educar. Não devemos nos iludir com práticas do tipo “o que é bom para mim, é bom para o meu filho”, “disciplina é apenas para momentos de crise”, “disciplinar com agressões e insultos”. Algumas recomendações: 1) o objetivo maior do ato de disciplinar é promover a autodisciplina e o autocontrole; 2) trabalhe em equipe para atingir os objetivos; 3) seja consistente, não rígido; 4) sirva de modelo, calmo e racional; 5) batalhas vão acontecer, escolha-as cuidadosamente; 6) não puna por conta de expectativas irreais; e 7) as recompensas e elogios nos momentos de acertos são as mais poderosas formas de estimular a autodisciplina. Nós, educadores, devemos ter sempre em mente que a forma com que disciplinamos poderá fortalecer ou enfraquecer a autoestima, autoconfiança, autocontrole e resiliência de nossas crianças.

Dr. Marco Antônio Arruda
Diretor do Instituto Glia
Neurologista da Infância e Adolescência
Doutor em Neurologia pela Universidade de São Paulo

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