O amigo de um amigo meu!

Você sabia que ter um amigo obeso aumenta o seu risco de ser obeso em 45%? Se o gordinho for um amigo de um amigo seu, esse risco cai, mas ainda assim continua alto, 25%. Mas pasme, se o sobrepeso afeta o amigo do amigo de um amigo seu, alguém que provavelmente você não conhece, você também não escapa, seu risco ainda é 10% mais alto do que alguém que não tenha amigos de amigos de amigos sobrando na balança… Afinal, de quem é a culpa? Seus amigos te engordam ou será que você é quem está engordando seus amigos!?!?!

Pois bem, estudos como esse, realizado pelo grupo de Nicholas Christakis da Harvard, que utilizam o paradigma das redes sociais para a análise de condições biológicas, estão revelando achados de grande impacto para a sociedade, expandindo a interface da Medicina com as Ciências Sociais, com a lupa da Ciência Biossocial.

A mesma reação em rede social é observada em muitos outros desfechos, alguns de amplo conhecimento popular. O chamado efeito da viuvez é outro exemplo. Casais que passam toda uma vida juntos, com a morte de um cônjuge, o remanescente passa a ter um risco duas vezes maior de morrer no primeiro ano de viuvez. Suicídios de adolescentes em série, abandono do tabaco e contatos sexuais também podem ser explicados por estudos de rede social. A prosperidade também, daí a sabedoria popular em dizer que mais importante que ser rico é ter amigos ricos!

E o que dizer da percepção de felicidade? A imagem desse post, que mais parece uma molécula complexa, na verdade ilustra uma rede social da famosa coorte de estudos da cidade de Framingham (Massachusetts). Cada nodo colorido é uma das 1.020 pessoas envolvidas nessa rede social de amigos, cônjuges e irmãos (círculos mulheres, quadrados homens). As linhas entre os nodos indicam o tipo de relação, preta para irmãos e vermelha para amigos e cônjuges. A cor do nodo indica o grau de felicidade da pessoa de acordo com a sua percepção, o azul indicando baixa felicidade, o amarelo os mais felizes e o verde uma felicidade intermediária. Pessoas felizes e infelizes tendem a se aglomerar em clusters (cachos) separados e as infelizes tendem a se posicionar na periferia da rede.

Inauguramos o uso desse paradigma em nossos estudos da Escola da Diversidade em Delfinópolis, o desafio da Canastra. Através dessa ferramenta poderemos analisar a distribuição das 600 crianças e adolescentes envolvidas no estudo a partir da nomeação de amizades. Cada criança será convidada a listar seus melhores amigos em ordem de preferência. A diversidade de habilidades e dificuldades de cada uma será definida a partir de escalas validadas que avaliam saúde mental, funções executivas, resiliência e criatividade, entre outros desfechos. A partir daí poderemos estudar numerosos aspectos de grande interesse para a Educação. Crianças com melhor saúde mental se agregam às com melhor saúde mental? As mais criativas se conectam preferencialmente às mais criativas? O que dizer daquelas com melhores funções executivas, procuram as mais criativas ou às mais resilientes? Crianças com melhor saúde mental são as mais resilientes? E assim por diante. Que fatores determinam isso? Cavaremos até encontrar, nosso estudo é prospectivo, abrindo a possibilidade de identificação de causalidade. Identificando causalidade estamos prontos a propor medidas educacionais que favorecem uma criança a adquirir essas habilidades, multiplicando suas alternativas de desenvolvimento.

Aguarde nossos primeiros resultados no Congresso Aprender Criança 2016, dias 19 e 20 de Agosto no Centro de Eventos do Ribeirão Shopping. Em breve o programa final e abertura de inscrições pelo site www.aprendercrianca.com.br.

Vamos que vamos (VqV)!

Dr. Marco Antônio Arruda
Diretor do Instituto Glia
Neurologista da Infância e Adolescência
Doutor em Neurologia pela Universidade de São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

8 + vinte =