Redução da maioridade penal: tapando o sol com a peneira

O cérebro do adolescente passa por transformações marcantes que são capazes de explicar muitos dos comportamentos típicos que apresenta. Ao mesmo tempo em que enfrenta uma série de desafios provocados pelo seu amadurecimento sexual e rápida transformação do corpo, percebe a crescente demanda imposta a ele pela família e a sociedade.

Paralelamente a isso, o cérebro sofre mudanças marcantes tanto no aspecto químico (mensageiros químicos cerebrais ou neurotransmissores), quanto no aspecto estrutural e funcional. Mensageiros químicos como a dopamina e a ocitocina passam por grandes tempestades nessa fase. A dopamina tem diferentes ações em diferentes regiões do cérebro, mas, sobretudo, em circuitos relacionados ao prazer, recompensa e controle das emoções.

A ocitocina, por sua vez, atua em circuitos relacionados ao medo, sono, reconhecimento de faces e exposição a situações de risco. Em termos estruturais ocorre uma exuberante poda neuronal que promove a maturação do córtex pré-frontal, um tapete de células altamente especializadas que recobre a parte da frente do cérebro, bem atrás dos nossos olhos, e que justificam nossa posição no topo das espécies animais. Essa região é responsável pelo que chamamos de funções executivas, quais sejam nossa habilidade de estabelecer objetivos, planejar, organizar, iniciar tarefas, perseverar, prestar atenção, regular as emoções, ser flexível, inibir comportamentos e guardar informações na memória de curto prazo.

Como essa região encontra-se em pleno amadurecimento ao longo da adolescência, é regra e não exceção, que apresentem dificuldades com essas habilidades, embora um percentual deles consiga dominar essas funções mais precocemente. O sono também sofre grandes transformações, de forma que o adolescente apresenta um padrão fisiologicamente atrasado, dorme mais tarde e acorda mais tarde. Isso vai causar mais uma série de problemas, concorda?!

Esses aspectos todos podem explicar a apatia e uma série de outros comportamentos do adolescente. Seu cérebro funciona muito mais subordinado às regiões mediadoras das emoções (sistema límbico, cérebro quente) do que nas responsáveis pela razão (córtex pré-frontal, cérebro frio).

Dr. Marco Antônio Arruda
Diretor do Instituto Glia
Neurologista da Infância e Adolescência
Doutor em Neurologia pela Universidade de São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

8 + 15 =